quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Estudando a Música Árabe 5 - Humor e Sabor na Música

"Acho que a verdadeira expressão da música absoluta tem de ser
 encontrada no mundo do som e nas relações sonoras"
Daniel  Barenboim

Na música utilizamos das expressões sabor e humor para determinar as impressões que sentimos ao ouvir o som de um instrumento.

Por exemplo: que sensações você tem ao ouvir o som do violino, que impressões ele te causa, se alguém lhe perguntasse como é o som do violino. Como você o descreveria?

Agora pense no som do piano.Quais sensações e impressões ele lhe causa? 
São as mesmas que a do violino?

Ao ouvir uma orquestra quais sons ficam mais em evidencia, que sons ficam escondidos quase imperceptíveis, mas são fundamentais na composição?

São estas impressões que chamamos de humor ou sabor. São elas que na Dança do Ventre determinam que caminho a composição coreográfica irá tomar.

Ao ouvir um som vibrante de um acordeom é quase inevitável fazer shime, mas alguns instrumentos a qualidade do humor é mais sutil. Ainda mais quando o instrumento está inserido numa orquestra ou conjunto musical. 

Numa orquestra onde vários instrumentos tocam juntos, este humor está representado nos conjuntos: cordas, sopro, metais madeiras, percussão e outros.

O mesmo acontece na orquestra árabe onde encontramos o alaúde, quanun, rebabe, nai, mijwiz, mizmah, derbak e os diversos tipos de pandeiro e outros instrumentos percussivos.

Cada instrumento possui seu humor e sabor próprio, ao passo que os conjuntos também produzem sabores e humores diferentes do instrumento sozinho, tudo isso junto irão determinar a condução da dança. 

Sons ondulantes movimentos ondulantes, sons vibrantes movimentos vibrantes, sons fortes, intensos, crescentes ou de impacto pedem movimentos da mesma natureza.

O comum para quem está iniciando é passar direto como se toda a musica fosse uma única onda, mas quando separamos cada instrumento e percebemos seu som, sua massa, seu humor e sabor a dança ganha vida, expressão e riqueza de detalhes.

Isso parece meio obvio, mas na prática o obvio geralmente não acontece. Assim o estudo prático e o treino constante é necessário.

Segue um link onde explico como pegar o Sack da música, estou um pouco nervosa no vídeo (gravar não é fácil rs) e contei errado o tempo, mas a explicação do sack é valida:



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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Estudo da Música Árabe 4 - Amar 14

"Incorporar o som, em vez de deixa-lo"
Edward Said em Paralelos e Paradoxos p. 99

Como já foi dito em outras postagens neste blog, dançar é transformar o som em imagens e emoções, e isso requer estudo e treino.

Assim sempre proponho aqui nas aulas de Dança do Ventre que ministro no FIDES o estudo de alguma música, identificamos as diversas camadas melódicas e rítmicas, sua textura, tempo e forma. O que facilita na hora de elaborar uma coreografia ou dançar num improviso.

Na live que fiz para o Projeto Happy Hour de Dança do Ventre, que este ano está acontecendo exclusivamente pelo Instagram   às 20 horas todas as sextas-feiras, falei sobre a música Amar 14.

Uma música que tem uma estrutura simples, mas ao mesmo tempo difícil de dançar.  Amar 14 está no álbum "A essência do Rask Sharki organizado pela bailarina Jalilah com o músico Mokhtar Al Said e o Derbakista Khamis Henrish, algumas composições do álbum são de própria autoria e outras de diversos compositores como a Amar 14 que foi composta por Mohamed Abdel Wahab, renomado compositor egípcio. 

Segue o link do spotify do álbum desta versão estudada: link no spotify  
E o link do deezer da versão original de Mohamed Abdel Wahab:

As duas versões são excelentes pra dançar e treinar as percepções das texturas e as diversas possibilidades de humor na interpretação e composição coreográfica.

Analise da música Amar 14:

Tempo: 4/4
Forma: AB
Textura: Orquestra Árabe completa
Modo Rítmico: Maqsum, Masmud Sahir, Malfuf

Características marcantes da música Amar 14:

A introdução desta música se divide em 4 partes, uma primeira parte lenta bem tradicional, já a segunda apresenta as características de um taksim, mas só é possível ter certeza se pegarmos a partitura ou assistirmos ao vivo, estas 2 partes eu chamo de apresentação dos músicos. Só na  terceira que vem a chamada da bailarina, depois disto entra uma escala suave que vejo como a introdução da música em si. 

Este começo é bem rico e apesar da chamada da bailarina ser bem marcante, eu gosto de entrar antes para dançar o Taksim. É um gosto pessoal que me permito, se eu dançar em um concurso talvez não faça assim, pois um jurado pode achar que não identifiquei a chamada.

Quando a música começa é difícil perceber o modo rítmico devido ao grande preenchimento da percussão, mas o sack está bem perceptível o que facilita na hora de marcar as passagens. Embora a melodia é suave a base percussiva é intensa o que pede uma movimentação igualmente intensa de quadril, porém não dá pra ignorar a melodia que se repete ao londo de toda música. O que dificulta o trabalho de bailarinos iniciantes, mas vale a pena treinar e pegar estas variações tão diferentes.

O primeiro tema melódico aparece no começo e no meio e o segundo se repete com diversas texturas, inclusive no derbak, que não está improvisando está repetindo a melodia, embora ele não é um instrumento melódico, o que deixa esta música mais fascinante.

No texto anterior dou umas dicas de como estudar uma música, que vale para esta também.  Só clicar aqui para ler

Agora você deve estar me perguntando:Eu preciso perceber tudo isso para poder dançar?

Sim e não!

Sim, se deseja realizar uma dança rica e diversificada. Se quer ter seu próprio estilo e ser autentico no palco e ter plena consciência do que está fazendo.

Não, se quer apenas curtir o momento ou dançar igual sua bailarina preferida, aí é só imitá-la.

Enfim, dançar não requer nada, apenas o desejo. Mas ser profissional requer muito estudo, como diz Roger Garaudy o bailarino deve ser detentor de uma grande cultura.

Segue o vídeo de um dos meus momentos de estudo prático:



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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Estudo da Musica Árabe 3 - Por uma Dança Natural e Criativa


A maior dificuldade de quem está iniciando o aprendizado da Dança do Ventre é como encaixar os movimentos na música.

Acredito que ao aprender a Dançar o bailarino ou bailarina realiza três habilidades distintas:

  1. As técnicas e dinâmicas da movimentação que caracterizam a Dança; 
  2. A capacidade de ouvir e distinguir as diversas camadas sonoras das músicas;
  3. O desenvolvimento da psicomotricidade capaz de representar o som percebido à movimentação aprendida.
Estas três habilidades resultam na Dança natural e criativa que adoramos assistir.

Mas como desenvolver estas habilidades?

O Primeiro passo é treinar sistematicamente os movimentos, ao ponto deles se tornarem naturais como passear no parque.

O segundo passo é ouvir a música árabe de forma a perceber os sons de cada instrumento, as diversas intensidades e o tempo de cada som. 

Depois deste momento podemos começar a "encaixar" os movimentos nos diversos sons percebidos, no começo fica algo neurótico e exaustivo, pois surge o desejo de realizar no corpo tudo o que aprendeu a ouvir, mas nem sempre isso é possível por ainda não ter desenvolvido a técnica do movimento ou falta de treino, as vezes por ser possível fazê-lo devido a velocidade da música ou textura extremamente rica.

Mas o importante para quem está começando é perceber que aquele som existe, que poderá ser representado ou ignorado. Sim, o bailarino pode escolher o que quer representar, porém isso deve ser uma decisão e não a unica opção.

Ao executar uma coreografia previamente elaborada ou de improviso, o bailarino deve estar consciente da sua escolha, o que vai representar na música, isto resultará na emoção a ser passada para o público,irá definir a sua expressão e intensão.

Como sugestão deixo uma dica:
Ouça a música e identifique os instrumentos, dance-a várias vezes, uma vez dance para cada um dos instrumento identificados, só o violino ou só alaude, primeiro o que for mais marcante depois os menos marcante como um  pandeiro por exemplo. Se for difícil isolar um único instrumento dance conjuntos, as cordas ou os instrumentos de sopro ou conjunto percussivo. O importante que se dance cada camada sonora isoladamente e só depois dance toda composição musical.

Assim fica mais fácil de marcar cada passagem em suas diversas intensidades.

Estudar Dança ou qualquer outra Arte é uma tarefa de amor e dedicação. Como cultivar um jardim, todo dia precisa ser recado.



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