quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Qual a diferença entre Dança do Ventre e Zumba?


Da janela da cozinha vejo a sala de aula de uma academia que fica na minha rua, hoje enquanto lavava a louça antes de sair para trabalhar fiquei olhando um grupo de mulheres fazendo uma aula de Zumba. 
Sou professora de Dança há mais de vinte anos, o que me faz incapaz de ver pessoas em movimento e não fazer uma análise.
Era visível para mim que elas não sabiam o que estavam fazendo, os movimentos eram perdidos, limitados, braços esquecidos, passos inseguros, as vezes faziam giros sem saber ao certo como terminá-los, pois os olhos, imagino, se dirigiam ao professor que infelizmente estava fora do alcance da minha visão.
Fiquei pensando na minha aula de Dança do Ventre e nas tantas que fui aluna. O que eu veria e pensaria se estive na janela do lado de fora sem saber a intenção da aula, nem a proposta do professor, o que os alunos buscam, qual o envolvimento de cada um naquele momento...

O Texto a seguir foi escrito por Taline de Lima e Costa em resposta a atividade do Curso de Formação em Dança do Ventre oferecido pelo FIDES Centro de Cultura Lazer e Saúde, nele está expresso de forma sensível e concisa a trajetória que muitas de nós igualmente passamos na busca pela Dança e seu significado neste mundo Belly Dancing.


Minha trajetória na dança do ventre se iniciou em meados de 2005, em minha terra natal, Campo Grande-MS. Eu tinha consciência de que necessitava praticar alguma atividade física, já tinha aversão à academia, fazia caminhadas, mas sentia que faltava alguma atividade mais sistematizada. Lembrei-me, em conversa com um amigo de ascendência árabe, sobre o encantamento que tive ao assistir a uma apresentação de dança do ventre na escola quando eu tinha uns 13 anos, por volta de 1999. O referido amigo me indicou a uma professora de dança a quem conhecia e eu me propus a me iniciar no universo da dança do ventre, mesmo com pouco dinheiro disponível já que eu não trabalhava, era estudante universitária. A professora de maior renome na cidade me deu um desconto que possibilitou o meu início.

E inicialmente, tudo era novo: a língua, o ritmo, a beleza das vestes. Fiquei uma semana fazendo exercícios específicos para iniciante: a professora dizia que eram para “soltar o quadril”. Não via a hora de fazer aqueles movimentos bonitos: os que eu mais admirava eram os redondos e oitos. Baixei diversas músicas por meio do “Emule”, um site de compartilhamentos de arquivos, especialmente músicas e vídeos (parece que isso foi há milênios, não é? Rs), pedia os CD’s da professora emprestados, os copiava e os ouvia incessantemente: limpando a casa, deitada na cama, enquanto lia. O ritmo entranhava em mim ainda mais e às vezes eu arriscava algum movimentozinho tímido.

Depois fui aprendendo alguns movimentos, mas a didática praticada impedia que nos fossem ensinados os nomes dos movimentos, raramente tínhamos alguma aula teórica, dificilmente sabíamos os ritmos. Não desmereço aquela professora, devo muito a ela em termos de aprendizados... Mas hoje percebo que seu foco era em exercitar, ela tinha certa gordofobia (consigo e, consequentemente, com as demais) e falava constantemente em queimar calorias, priorizando o enfoque do exercício em detrimento do aprendizado por muitas vezes. Para minha “sorte”, naquela época eu era magra, mas as colegas que não tinham o mesmo perfil eram, com frequência, citadas: “Vamos, ‘fulana’, mais rápido, vamos queimar essas gordurinhas”

Mas ela nos corrigia quando o movimento era feito sem cuidado ou forçando alguma região, nos direcionava à prática mais acertada em termos fisiológicos. Assim, fui aprendendo, mas sentindo falta de instruções, comecei a procurar vídeos e DVD’s da então Lulu Sabongi (hoje Lulu Hartenbach). Aprendi a nomear, exercitei-me ainda mais, admirava aquela figura emblemática. Comecei a aprender pandeiro a pedido: minha professora tinha 5 ou 6 alunas mais especiais, que eram também amigas de sua família: as demais precisavam ter mais proatividade para aprender coisas novas. Minhas coreografias eram sempre de ritmos rápidos, com muitos shimmies... Eu gostava, mas queria exercitar mais os ondulados: a professora disse que não combinava com meu estilo de dança, que eu tinha um estilo mais enérgico. Tomei aquilo como um elogio e prossegui.

Em julho de 2008 mudei-me para São Paulo, tendo de interromper o aprendizado: estava desempregada, me adaptando à nova cidade e cultura. Procurava locais que porventura ministrassem aulas gratuitas, mas nunca encontrei. Aí veio o primeiro emprego: muito tempo despendido e salário parco. O emprego seguinte, o mestrado. Fui protelando meu reingresso à rotina de dança

Hoje, agora, escrevendo este relato, pude observar o quanto minha primeira experiência (além de minhas dificuldades concretas de tempo, deslocamentos na região metropolitana) pode ter tardado este reingresso: tinha como experiência uma didática voltada à prática, sem instrumentais teóricos nem reflexivos, com predileção de uns estudantes em detrimento de outros. Sei que foi o melhor que eu pude ter naquele momento e local, mas agora, conhecendo outra abordagem, sei como pode ser bem melhor... Percebo que, presentemente, meu aprendizado tem evoluído no sentido de ser, de autoconhecimento, mais reflexivo, respeitoso comigo e com a cultura da dança do ventre e com as outras praticantes. Assim, tenho o desejo de que todas que gostam da dança possam vivenciá-la com esses princípios.  






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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Processos Coregráficos na Dança do Ventre 7 - Como Dançar com Espada

Este texto faz parte da série Processos Coreográficos onde falo sobre como estudo e elaboro minhas coreografias de Dança do Ventre. E o tema de hoje é como dançar com espada.
A Dança com Espada faz parte da tradição de muitas culturas do Oriente, geralmente realizada por homens que exibem sua habilidade e destreza com o instrumento símbolo da masculinidade. Foi inserida na Dança do Ventre pela necessidade de diversificar os shows e cativar o público.
Quando me ensinaram a dançar com espada me disseram que era um instrumento que deveria ser usado com músicas lentas e melodiosas e a espada deveria ser equilibrada na cabeça, quadril, ombros, mãos e coxas. Porém com  o passar do tempo percebi que o dançar com a espada pode ser muito mais dinâmico, podemos fazer diversas manobras, simular golpes, giros intensos e um toque de sensualidade e demostração de poder. Por isso prefiro coreografar com a espada  músicas fortes bem marcadas que exijam dinamismo e mistério.
A coreografia a seguir foi inspirada num trecho do filme Alexandre, O Grande no filme as bailarinas dançam com punhal, mas a motivação não foi o instrumento, mas a intensidade e sedução da cena.
Como a coreografia foi montada para uma turma iniciante, sim espada pode ser dançada por iniciantes e apenas mais um instrumento,  fiz uso de movimentos básicos sem variar o desenho cênico.
A música utilizada se chama Naga  do músico percussionista Jeremiah M. Soto conhecido como Solace, suas músicas são misteriosas e intensas geralmente coreografadas pelo bailarinos do Tribal.
Em Naga encontramos a percussão bem forte no célula rítmica Masmud Saghir/baladi. o coro suave e as paradas bem marcadas proporcionam o ar de mistério ideal para a proposta.
Segue alguns vídeos de nossas apresentações:









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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Processos Coregráficos na Dança do Ventre 6 - Como Dançar com Véu

Dançar com véu é muito prazeroso, além da sensação de leveza e magia que o véu proporciona tanto para quem dança como para quem assiste é o Ás na manga para quem está iniciando.
Um instrumento na mão sempre favorece o bailarino iniciante, pois disfarça um braço mal posicionado, transmite segurança,  disfarça um eventual quadril menos dinâmico.
Só não pode esquecer que a proposta é fazer a Dança do Ventre com véu e não apenas dançar com véu, como muitas vezes vemos, uma movimentação maravilhosa de véu e nenhuma marcação de quadril ou quando esta ocorre é apenas com shimie numa parte mais intensa da música. 
Uma técnica bem interessante que aprendi com a minha primeira professora, que facilita para não esquecer dos movimentos de corpo característico da Dança na hora de coreografar  é intercalar movimento de véu, movimento de corpo e movimento de corpo com véu juntos. 
Seguindo este esquema e variando as movimentações nos níveis alto, médio e baixo a dança será sempre criativa e dinâmica.
Esta foi a preocupação que tive quando elaborei a coreografia que apresento neste texto, se observarmos existem movimentos de corpo, intercalados com os movimentos de véu nos diferentes níveis. Além da troca constante do desenho: linha, coluna, circulo  e diagonais.
Embora o véu na Dança do Ventre não faz parte de nenhuma tradição como já expliquei em outro texto sobre como dançar com véuos sete véus, é de comum acordo que o véu é usado para fazer a introdução do bailarino na dança, mas sempre existe a licença poética quando falamos de fazer arte. 
A música coreografada se chama Yassmena do músico egípcio Sayed Balaha, é uma música de estrutura clássica, o ritmo predominante é o maksum com variações, a melodia simples, mas rica no  preenchimento da textura o que dá a sensação de dinamismo na sua sonoridade. Essa musica foi a escolhida justamente por esta característica, permite movimentações rápidas e intensas. 
Este aspecto dinâmico da música foi caracterizado na coreografia na constante troca de posições dos bailarinos e o vigoroso trabalho de quadril.
É uma coreografia de nível intermediário à avançado, pois exige técnica mais apurada de movimentação, além do domínio do véu.

A seguir vídeo de algumas apresentações:
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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Processos Coregráficos na Dança do Ventre 5 - Dançar com Punhal

O punhal é um instrumento pouco utilizado na Dança do Ventre, mas quando bem feito proporciona uma sensação de poder, envolvendo o público numa atmosfera de mistério, uma dança que prende a atenção de quem assiste.
Não existe uma regra específica para este instrumento, apenas sugestões de movimentos e de composições. O punhal exige uma dança intensa e moderadamente interpretativa, onde o bailarino simula uma mistura de luta interna e externa. 
Neste vídeo falo um pouco sobre este instrumento: 

Esta coreografia é fruto de uma proposta de aula, onde foi sugerido a três alunas que  elaborassem uma coreografia curta, a música utilizada foi "Wonderful Arabic Music Instrumental", que sugere o mistério que o punhal pede, o crescente em sua massa sonora traz a agilidade de uma batalha para a movimentação do grupo. Como disse é uma música excelente para a dança com punhal
Apesar de não ser eu que a elaborei vejo muito do meu trabalho nela, a estrutura em roda e diversos movimentos que fazem parte do meu repertório foram utilizados e bem colocados, é  perceptível o estudo prévio da música em sua forma e textura, fizeram muito bom uso das marcações para expressar a intensidade do instrumento.
Caso você não tenha visto os textos anteriores sobre composição coreográfica click aqui
Na sequencia alguns vídeos das apresentações:








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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Processos Coreográficos na Dança do Ventre 4 - Solo de Derbak


Priscila Genaro
Este texto é o quarto da série processos coreográficos onde explico as diversas formas de elaboração de coreografias, caso não tenha visto os anteriores ao lado tem um menu ou você pode acessa-los aqui ou ainda se cadastre para receber em seu email, nossas informações, textos, vídeos e tudo que publicamos sobre a Dança do Ventre e o universo que a acompanha.
A coreografia de hoje foi realizada na música Fiesta Tabla Master, um belíssimo solo de derbak  trabalhado dentro de uma composição musical clássica, ela faz parte do CD bem antigo da bailarina Samara. 

Capa do CD Samara
Na elaboração de um solo de derbak o bailarino tem a liberdade de criação, o que importa neste  tipo de construção coreográfica e a representação corporal das diversas variações sonoras. O bailarino deve representar de forma perceptível para o público a variações de sons graves e agudos que o derbakista pode produzir com o instrumento. 

O derbak é um instrumento que possibilita uma gama de sons diferenciados que pode ir de um estalo bem agudo a um baque grave e forte, incluindo vibrações de diversas intensidades. Alguns destes sons são nomeados de Dum, Ta, Ka e Rush. Porém as variações sonoras vão além destas quadro nomenclaturas, que impreterivelmente devem ser representados na movimentação do corpo de quem dança.

De todas as coreografias que já fiz esta é a que gosto mais, penso ser  fruto de um momento de intensa Inspiração, acredito que todo artista criador possui uma conexão Divina que o inspira e coisas grandiosas e perfeitas surgem como que por mágica. É o caso deste solo de Derbak.
Vou contar a história desde o começo, houve um período em minha vida que todo final de semana havia ao menos um show na agenda. Eu estava na loucura conciliando meu cargo na educação, a dança, a faculdade e dois filhos, vivia correndo de um lado para o outro e dormindo nos intervalos. Até que finalmente uma noite de sábado de folga sem show. 

Terminei as aulas e cheguei em casa às vinte e uma horas, meus filhos estavam com o pai naquele fim de semana e eu fiquei lá sem nada pra fazer, parecia que ali nem era minha casa de tanto tempo que eu passava fora, só pra variar coloquei um CD e fiquei dançando.

Geralmente solos de Derbak não me empolgam muito, gosto de musicas melodiosas, então pulo estas faixas dos CDs. Mas neste dia quando na sequência tocou este solo dancei e como num transe a coreografia inteira surgiu de uma única vez, ao final eu sentei e anotei, coisa que nunca faço, depois dancei de novo e a coreografia estava lá pronta, sem analise da músicas  ou estudo das possibilidades de movimentos, simplesmente ela surgiu pronta em minha mente como uma visão mística.
Alunas do FIDES Centro de Cultura
Nesta época eu tinha um grupo de alunas avançadas que levava para dançar e passei para elas a coregrafia, simplifiquei alguns movimentos e depois com o tempo fiz mais algumas adaptações em relação ao uso do véu.

O véu dourado sofreu mudanças, à princípio era reto e retangular, depois passou a ser o arredondado que usamos hoje, colocamos umas varas de uns trinta centímetros nas pontas para dar movimento, até então eu nunca tinha visto véus com apoio nas pontas, fora o véu wings, hoje já vi em algumas coreografias.

Essa coreografia é minha obra de arte a danço por mais de 15 anos. Quando comecei a fazer os vídeos para a internet fiz um workshop online ensinando-a passo a passo, o vídeo não está bem editado, mas vale a pena o registro. Caso queira aprende-la só acessar o link:

Na sequencia os vídeos de algumas apresentações:

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domingo, 3 de junho de 2018

Processos Coreográficos na Dança do Ventre 3 - Música El Ard com Pandeiro



Priscila Genaro pandeiro
Este é o terceiro texto desta série, no primeiro explico 3 aspectos que considero importante na construção de uma coreografia, no segundo faço um relato do processo coreográfico  da Musica Salamalekum do Grupo Mawaca.

Hoje vou relatar a construção de uma coreografia que adoro, realizada com a musica El Ard do músico Mario Kirlis . Diferente da anterior, esta não teve uma busca prévia, não tem uma história intencional.  Nasceu de uma sequência de aula de uma turma iniciante, cujo o propósito era o treino de alguns movimentos na célula rítmica said.

Como tínhamos uma apresentação se aproximando e essa turma era novinha apenas três meses de aula, não tínhamos nada preparado. Então a sequência evoluiu para a coreografia, tanto que repetimos várias vezes os mesmos movimentos devido o pequeno repertório trabalhado até então.

Priscila Genaro Dança com Pandeiro
O véu foi uma forma de dar uma entrada triunfante à coreografia e distrair a atenção do público da pouca técnica do grupo preenchendo o palco com o dinamismo que o véu proporciona. O mesmo ocorre com o uso do pandeiro.

Dançar com um instrumento facilita a vida do aluno iniciante, pois define onde posicionará seus braços, evitando os terríveis braços perdidos que os recém praticantes de Dança do Ventre apresentam.

A maioria das minhas coreografias em algum momento formam uma roda, pois acredito na simbologia do círculo, todas os integrantes equidistantes dançando um para a outro, além da segurança de estar vendo o que o colega faz, o grupo se fecha num clima íntimo.  Muitas vezes quando estamos em roda nos olhamos e neste momento só exite a roda, o público e o palco se dissolvem num círculo amigo e protetor, excelente para os novatos.

É interessante a transformação dos rostos tensos procurando um alento em sorrisos felizes, alguns alunos me olham a procura de aprovação, quando lhe retribuo com sorriso é visível o alivio imediato. Neste momento sei que nasceu um bailarino.

Eu adoro essa coreografia com o pandeiro por ser  simples, fácil e bonita. Com ela foi possível trabalhar na turma os deslocamentos em cena e o tempo do said, pois tinham que bater no pandeiro no tempo certo, porém sem a exigência do conhecimento aprofundado sobre a estrutura musical, assim foi possível uma aprendizado natural e tranquilo. Depois fizemos uns ajustes e a dançamos com snujs ficou muito bom também.

Música alegre, turma muito boa e empenha foi a receita perfeita para um trabalho bem feito, guardo na coração os momentos gratificantes com esta turma.

Na sequencia dois vídeos onde explico um pouco sobre a Dança do Pandeiro e uma das apresentações que realizamos com esta coreografia:









Segue abaixo vídeos de algumas apresentações.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Processos Coreográficos na Dança do Ventre 2 - Coreografia Mawaca com Véu Rosa

Dando continuidade ao texto anterior onde expliquei o processo coreográfico na Dança do Ventre, hoje começa uma série de textos nos quais relatarei as pesquisas feitas na construção de algumas coreografias que gosto muito. 

A primeira coreografia desta série foi feita com a música "Salamalekum do grupo vocal, brasileiro, Mawaca que apresenta músicas do mundo inteiro acompanhadas de um instrumental ricamente elaborado. A escolha teve por critério o ar das mil e uma noites, dos castelos orientais relatados nos livros e contos orientalistas que ela nos remete. Embora exista uma crítica a este tipo de literatura, quando falamos do oriente antigo é esta a visão que vem a nossa mente e foi desta imagem que partimos para a construção da estrutura da dança.

O tema da coreografia nasceu antes da música, minha intensão era representar uma história épica o encontro da harmonia e do cotidiano  das mulheres com seus  homens guerreiros cada um em suas representações arquetípicas.

Mulheres suaves e apaziguadoras ao lado de homens fortes e viris,  que apesar da força e masculinidade são envolvidos pela doçura feminina quando regressam ao lar após a contenda, pois sabem que elas estão lá prontas para recebe-los.

A coreografia tem um toque Andaluz, para retratar essa expressão estudei o que é a dança Andaluz. Embora a maioria dos bailarinos conhecem e optam por representar a versão Andaluz de Mahmud Reda com movimentação de braços e pernas em arabescos e poucos movimentos de quadril, é necessário compreender que Andaluz é uma fusão cultural que ocorreu entre os povos árabes e os povos da península Ibérica durante a expansão Islâmica após 750 d.C., mais precisamente na região de Andaluzia no sul da Espanha, região de cultura ricamente diversificada devido a sua localização geográfica que possibilitava grande intercâmbio comercial e cultural com outros povos dos continentes Africano e Asiático.

Sou muito fã de Mahmud Reda, quando ele veio ao Brasil fiz todos os seus workshops e me apaixonei por seu trabalho e da Farida Farmy, principal bailarina de sua companhia de dança. 

Por isso não poderia deixar de estudar as suas composições, observei o que preservou da dança andaluz européia e que preservou da dança árabe. Observei a leveza dos passos, os movimentos de mãos como também as danças dos homens com sua força masculina implícita nas movimentações e gestos que poderiam ser acrecidas. E nasceu essa coreografia que chamamos de "Véu Rosa"

Pensar no figurino foi outro processo, não tinha a intenção de reproduzir mais uma versão das coreografias Reda, então busquei inspiração nas imagens que retratam o oriente de  Giulio Rosati, Rudolf Ernst e Frederick Arthur Bridgman, pintores orientalistas.

Em algumas apresentações dançamos usando o tantur para prender o véu. Tantur é um chapéu em formato de cone, seu uso é mais comum na região do Líbano pelos povos das montanhas até século XIX, quanto maior e mais comprido era o cone mais prestígio e riqueza representava.

Mas como era mais difícil fazermos um tantur, fizemos um tarbuch, chapéu turco que é comum ser usado pelos muçulmanos. Quando o Império Romano ocupou todo o oeste, o tarbuch passou a ser usado também no Egito e em outros países e regiões que foram dominadas.

Assim fizemos uma misturinha bem consciente em nome da arte e do compromisso com o público de  fazer um belo espetáculo. 

O Véu Rosa é uma coreografia que gosto muito pelo atmosfera singela e simples que transmite.

Nas sequencia o vídeo de uma das apresentações: 


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